As raizes da agroecologia

Entrevista. A Ferme de la Tremblaye é uma fazenda produtora de leite e queijos que pratica a agroecologia desde 2008. Seu gerente Henri Cazajus e seu diretor geral Baptiste Carrouche explicam os conceitos desse tipo de agricultura que preserva a natureza.

▶ Como definir o conceito de agroecologia ?
HC :
É um modelo de agricultura sistêmica baseado no bem-estar dos humanos, solos e animais. Essa filosofia foi desenvolvida há mais de quarenta anos no Brasil e na França pelo agrônomo e pedólogo (estudioso dos solos) do CIRAD (pesquisa agronômica para o desenvolvimento), Lucien Seguy, fundador da "agricultura de regeneração". A idéia central é que o ser humano não pode mais ser um predador de seu ambiente.

Assim, um queijo agroecológico é muito mais que um queijo, é um concentrado de biodiversidade, um instante de profunda coerência com a terra, o animal e o homem. Enfim, é o agricultor que queremos colocar no centro desse sistema. Identificamos em nosso leite cru 126 espécies bacterianas e 96 espécies de leveduras e bolores nativas daqui.

▶ A quais parâmetros essa abordagem obedece?
HC :
Ela está interessada em primeiro lugar no bem-estar do solo. O princípio é não perturbar a vida microbiológica, não perturbar as minhocas, ácaros, colêmbolos, larvas e todos os seres que ali vivem. Máquinas pesadas são, portanto, proibidas. A ideia é favorecer uma biomassa forte em uma cobertura vegetal permanente.

BC : Nós nos inspiramos na floresta ao nosso redor: ela produz muita diversidade e biomassa sem a necessidade de fertilizantes químicos, tudo cresce e tudo funciona, é um equilíbrio. Na prática, nosso solo não é mais arado desde 2008. Graças à rotação de culturas (aveia, alfafa, fava, soja, colza nada geneticamente modificado ...), temos cobertura permanente do solo. Estamos em conversão orgânica para nossas lavouras, não utilizamos mais fertilizantes químicos sintéticos, valorizamos primeiramente o esterco dos rebanhos.

HC : O estrume alimenta uma unidade de biogás que fornece energia para três cidades. Em 2017, uma auditoria mediu a pegada de carbono da fazenda: 0,73 kg por litro de leite. Para o quilo de carne, a média na França é em torno de 13 kg de carbono. Nosso objetivo é chegar a 0,60 kg em 2021, quanto mais temos vacas, mais podemos reduzir esse coeficiente.

Um instante de profunda coerência da terra, animais e homem.

▶ Como vocês abordam o bem estar animal?
HC :
O princípio é respeitar suas cinco liberdades fundamentais: psicológica (não ter medo ou estresse), fisiológica (sem desnutrição, uma vida saudável ...), comportamental (a possibilidade de expressar comportamentos típicos para cada espécie, como mover-se, relaxar, socializar), sanitário (combate as doenças através de prevenção eficaz e tratamentos adequados) e ambiental (sem desconforto, sem estresse climático e físico).

BC : Por exemplo, as vacas são pesadas diariamente antes e depois da ordenha. Nós monitoramos o peso para detectar possíveis problemas. Enviamos para pastagem ou inseminação apenas vacas em ótima saúde. Uma limpeza suave precede a ordenha e os mamilos são acariciados gentilmente por dois minutos para liberar a oxitocina e facilitar a descida do leite antes da ordenha.

HC : Nós usamos computadores para ajudar o criador em seu trabalho. Cada animal tem uma tornozeleira ao redor da pata. Quando a vaca passa pela sala de ordenha, uma antena identifica e dá permissão ou não para continuar a ordenha. Por exemplo, as vacas que pariram há menos de 7 dias ou as que foram tratadas com antibióticos são barradas. Um sensor mede a quantidade de leite e identifica se há início de mastite. O leite é então analisado por um dispositivo de infravermelhos (Afilab), que mede em particular o teor de proteína e gordura. Em seguida, o leite é separado automaticamente e enviado para dois tubos que transportam a matéria prima para a sala de ordenha, um para a produção de leite cru e outro para o leite pasteurizado.

Por que a parcela no no alto a esquerda não tem mais neve? Porque o solo é mais vivo e, portanto, mais quente. À direita, a usina de biogás.

À esquerda da cobertura central, uma parcela preparada em trabalho superficial, sem aragem: a água permanece na superfície e vai em direção à... Paris. À direita, uma parcela trabalhada em agricultura regenerativa: o solo absorve água, permanece bem conciso e resiste endurecimento.

▶ Falem sobre a dimensão humana
HC :
O agricultor, o criador de gado e seus empregados são respeitados como cidadãos rurais. Nós motivamos a boa vizinhança, a boa saúde e o bom fluxo de informações. Nós promovemos o homem do campo como um educador dos urbanos. Ele abre sua fazenda para a população urbana e para crianças em idade escolar em um programa com objetivo de despertar para a biodiversidade. Ela abre o seu know-how para os jovens para fazê-los descobrir as profissões de produtos vivos através de estágios e alternância.

▶ Qual é a diferença entre agricultura biológica e agroecologia?
HC :
O sistema orgânico não considera a fazenda como um todo. Dos cerca de 15 itens abordados pela agroecologia, a agricultura orgânica convencional resolve apenas 7. Por exemplo, a boa vizinhança que defendemos como essencial para o bem-estar humano não é uma orientação expressa em regulamentos dos orgânicos. Eles permitem a presença de máquinas volumosas para trabalhar a terra, a monocultura. A agroecologia defende a ideia de que devemos absolutamente reduzir as emissões de gases de efeito estufa. Defende fortemente a biodiversidade nos sistemas de produção agrícola e reforça o seu papel como fator de produção. Por exemplo, introduzimos colméias em nossa fazenda, as abelhas são essenciais para a polinização de culturas e plantas silvestres. Minha opinião pessoal é que podemos fazer muito melhor do que orgânico!

▶ Como promover a agroecologia?
HC :
A Europa tem um papel indispensável a desempenhar na quebra das tradições da agricultura convencional, nos privilégios concedidos. Devemos iniciar um movimento, favorecer uma pauta mais em harmonia com a natureza.
Mais amplamente, é necessário redefinir a função do agricultor na sociedade, para desenvolver produtos saudáveis. Desenhar as paisagens e mantê-las. O agricultor deve se tornar um camponês de seu país, um ator da ruralidade com empregos e produtos feitos e vendidos localmente.◼

Ferme de la Tremblaye: dez anos de experiência

Localizada na cidadezinha de Boissière-Ecole na região de Ile-de-France, a meia hora de carro de Paris, a Ferme de la Tremblaye produziu 355 toneladas de queijo em 2018, com uma gama de cerca de quinze referências, incluindo três de leite cru *. A oferta é distribuída por duas marcas, "Ferme de Jouvence" para boutiques só de queijo (31% das vendas) e a "Ferme de la Tremblaye" para supermercados (18%). O resto é exportado.

A fazenda é propriedade pessoal de Jean-Noël Bongrain, dono da empresa multinacional Savencia. "Não temos um elo estrutural com o grupo Savencia, mas herdamos seu senso de rigor. Jean-Noël Bongrain treinou seus filhos nessa fazenda. Um deles criou o queijo St Jacques (em referência ao caminho de Saint Jacques de Compostelle passando aqui), um tipo coulommiers com casca florida Geotrichum". A fazenda tem uma área agrícola útil de 138 ha, que permite alimentar 149 vacas (Holstein e Jersey) e 500 cabras (Murciana-Granadina e Alpinas). "Estamos introduzindo mais a raça Jersey no nosso rebanho. Nós vamos ter um leite mais saboroso sem o risco de gosto de ranço por lipólise exagerada no queijo, porque trabalhamos o leite direto, sem passar pela desnatadeira e sem a padronização convencional de um leite industrial. Nosso leite é transformado fresco, natural!".◼

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